Dólar em compasso de espera: mercado ignora a realidade e aposta na fraqueza americana para salvar o real – Noticiário 24H

O dólar abriu o dia operando em um mar de apatia, com leve volatilidade, aguardando a divulgação de uma nova bateria de dados econômicos do Brasil e dos Estados Unidos. Para o observador desatento, pode parecer um dia de calma. Na realidade, é o retrato perfeito de um mercado que desistiu de procurar por boas notícias internas e agora aposta, de forma perversa, na deterioração da economia americana como única tábua de salvação para o real.

A agenda do dia está cheia. No Brasil, o IBGE divulga a Pesquisa Mensal de Serviços e o Levantamento da Produção Agrícola, números que devem apenas confirmar a estagnação de uma economia asfixiada por impostos, burocracia e pela total ausência de uma agenda de crescimento por parte do governo. O mercado já precificou o fracasso; a espera é apenas para saber a magnitude do estrago.

O verdadeiro foco dos investidores, no entanto, está nos Estados Unidos. Lá, serão divulgados os dados de inflação ao produtor (PPI) e os pedidos de seguro-desemprego. E aqui reside a grande inversão de valores da economia brasileira: os agentes torcem por números ruins. A esperança é de que uma inflação mais baixa e um desemprego mais alto nos EUA forcem o Federal Reserve (o banco central americano) a acelerar o corte de juros, enfraquecendo o dólar globalmente e, por consequência, dando um alívio artificial ao real.

Essa dinâmica expõe a total perda de soberania da nossa moeda. O valor do real não é mais um reflexo da produtividade ou da confiança no Brasil — que estão em níveis baixíssimos —, mas um mero derivativo da política monetária americana. Não temos mais uma economia com fundamentos próprios; temos um barco à deriva, torcendo para que a maré da maior economia do mundo o leve para águas menos turbulentas.

A discussão em Brasília, focada em mais gastos, mais subsídios e mais intervenção, apenas agrava o quadro. O governo, incapaz de promover as reformas estruturais necessárias para atrair capital produtivo — como o corte de gastos e a simplificação tributária —, assiste passivamente enquanto o destino de nossa moeda é decidido em Washington.

Portanto, a “espera” do mercado hoje não é por um sinal de melhora, mas por um sinal de que a economia americana pode piorar antes da nossa. É uma aposta na decadência alheia como única estratégia de sobrevivência. Independentemente do resultado dos dados de hoje, a lição é clara: sem uma mudança radical de rota, que restaure a confiança através da liberdade econômica e da responsabilidade fiscal, o real continuará sendo uma moeda fraca, perpetuamente refém dos problemas dos outros para disfarçar os seus próprios.